O beijo de Caetano e Gil

Caetano,

No dia 27 de junho você e Gil nos deram um show maravilhoso em Bruxelas!

Eu estava numa das primeiras filas e não pude me conter. Gritei: “um beijo! eu quero ver um beijo!“. Sei que vocês me ouviram, pela expressão dos seus rostos. Talvez tenham ficado sem graça, não sei. De qualquer forma, tenho confiança de que entenderam que se tratava de uma demonstração de amor, admiração e reconhecimento.

Eu queria gritado ainda “O beijo de vocês pertence ao patrimônio nacional!“. Mas era muita palavra para articular naquele momento 🙂

Minha mulher, a meu lado, arregalou os olhos para mim. Expliquei-me depois.

Tenho quase 50 anos, a idade da carreira de vocês dois. Carreira que vocês tão bem comemoraram nesse show formidável. Toda minha vida foi marcada pelo que vocês dois fizeram.

Uma das canções mais fortes foi sem dúvida “Ele me deu um beijo na boca” de 1982. Ela marcou toda a minha geração. Independentemente da sexualidade de cada um, essa música nos incitou a viver o que vem do fundo do nosso coração, de nossa alma. A viver intensa e livremente segundo os nossos próprios desejos e nossa intuição. A não nos guiarmos pelas orientações mesquinhas dos padrões sociais. A não nos intimidarmos pelos olhares alheios. A termos orgulho da qualidade humana do sentimento que brota de dentro de nós, seja ele qual for.

Eu era um adolescente e fiquei muito sensibilizado pela canção. Por sua beleza, sua coragem, sua inteligência, sua originalidade. Tenho orientação heterossexual. Fico emocionado em imaginar o que essa canção representou para pessoas de minha geração que viviam — de forma episódica ou prolongada — a bissexualidade ou a homossexualidade. Talvez para elas tenha sido ainda mais forte do que para mim. No meu caso, ao viver essa canção, a empatia que tinha com relação com essas pessoas  aumentou. Ela tem me acompanhado, grande no meu coração, por toda minha vida.

Ainda hoje, quando ouso fazer algo de inusitado, busco inspiração nessa música, que nunca saiu de minha memória. Foi provavelmente ela aliás que me permitiu de gritar “um beijo” diante de público inteiro de Bruxelas. Da mesma forma, quando me ponho a rir como uma criança, ressoa em algum lugar a sua voz cantando “e ele riu e riu e riu e ria“…

Sou imensamente grato por essa música, por todas as outras e pelo maravilhoso show. É uma grande sorte e privilégio ter nascido em 1966 e ter vivido em sincronia com a sua carreira artística.

(Outra coisa: Gostaria muito de lhe enviar um mensagem pessoal, falando de uma música, totalmente desconhecida, que eu adoro e que você interpretaria muito bem. E, penso, com muito prazer. Se tiver curiosidade escreva-me no email: markolopa@gmail.com)

Um grande abraço,

Marko Loparic

(Do exílio em Bruxelas, aos 13 de julho de 2015)

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